Voto a Voto

01/10/2005

Caminhoneiros se dividem quanto ao desarmamento

Diretor do Sindicato da União Brasileira dos Caminhoneiros defende necessidade do porte para a categoria, mas opinião está longe de ser unanimidade na profissão

Raquel de Mello
votoavoto@uol.com.br
Do Voto a Voto

"Temos de nos defender. Sem arma, como podemos ter segurança nas estradas? Quem anda armado ilegalmente são os bandidos. Para que o desarmamento funcione num país como o Brasil o correto seria que ninguém tivesse acesso a armas e munições, sem restrições", diz Arizael Saraiva, ex-caminhoneiro.

A declaração de Arizael, que hoje faz parte da diretoria do Sindicato da União Brasileira dos Caminhoneiros, expressa o descontentamento e a insegurança dessa classe de trabalhadores, que está exposta diariamente à violência. Segundo ele, as estradas brasileiras não oferecem segurança para os motoristas de caminhão que, muitas vezes, arriscam suas vidas na velocidade para atravessar trechos perigosos sem a certeza da chegada. Viajar armado para um caminhoneiro pode significar, na opinião do sindicalista, a preservação da integridade física de mais de 1,3 milhão de motoristas - segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). 

As regras para se ter uma arma, contudo, ficaram mais rigorosas desde o Estatuto do Desarmamento, que vigora desde 2003. De acordo com as normas do Sistema Nacional de Armas (Sinarm), a aquisição de arma de fogo e munição só é aceita mediante comprovação de idoneidade - com apresentação de certidões de antecedentes criminais fornecidas pela Justiça Federal, Estadual, Militar e Eleitoral -; o cidadão precisa também não estar respondendo a inquérito policial ou a processo criminal. As pessoas que requerem licença para armas precisam apresentar documento comprobatório de ocupação lícita e ter residência certa. Precisam também de comprovação de capacidade técnica e de aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, atestadas na forma disposta no regulamento desta Lei - Art. 4º, parágrafos I, II e III da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003. Para a maioria dos caminhoneiros, de acordo com Arizael, nenhum bandido vai cumprir as normas e, portanto, ficam desarmados apenas os cidadãos honestos.

Risco de mais violência
Embora a bandeira do desarmamento não pareça lógica para o diretor do Sindicato da União Brasileira dos Caminhoneiros, uma parte dos membros da categoria afirma que carregar arma durante as viagens pode gerar mais violência. Laércio Xavier, de 36 anos, há 18 na profissão, acredita nessa hipótese. "Antigamente só viajava armado, mas hoje não uso mais nada. Numa dessas viagens, em Belo Horizonte, precisei pegar um chapa (ajudante de beira de estrada) para me levar num local que eu desconhecia. Ele entrou na boléia, sacou uma arma e me roubou. Não reagi porque estava desarmado. Se estivesse armado, teria matado esse cara". Hoje, Laércio afirma estar aliviado por não ter matado o assaltante. 

Quase a mesma situação surpreendeu o veterano Antônio Benedito de Luccas, 53 anos, há 29 nas estradas: ele garante não ter matado porque não estava armado, mas a ausência de uma arma resultou na preservação da sua vida. "Quando fui assaltado, o ladrão deixou claro que se eu estivesse armado, me mataria", afirmou.

No entanto, essa não é a opinião de A.A.B.M., 47, motorista desde os 18 anos e adepto da defesa pessoal. Para ele, será impossível controlar o desarmamento em todo o país e quem ficará à mercê da violência será a família. "Nunca fui assaltado, mas não ando desarmado. A arma me dá segurança. Quando estamos na estrada, somos agredidos por grupos de bandidos que não têm piedade. Levam tudo o que temos", revelou. 

Outro caso semelhante é o de R. B., 41, que trabalha há 19 anos como motorista de caminhão e confessa andar armado desde o início de sua carreira. "O bandido não está desarmado e nem vai ficar se o desarmamento ganhar no referendo. A corrupção é maior do que a vontade de diminuir a violência em nosso país", afirmou.

Bandidos inibidos
A falta de segurança nas estradas e rodovias em função do pouco policiamento é a justificativa dos motoristas A.A.B.M. e R.B. para legitimar seu voto no "não" no dia 23 de outubro. O ideal, segundo eles, seriam rondas policiais mais constantes - principalmente nas estradas consideradas mais perigosas -, mais efetivos e mais postos de policiamento estrategicamente posicionados, inclusive nos feriados e finais de semana. Para o sindicato, a presença da Polícia Rodoviária inibe a ação dos bandidos.

A Polícia Rodoviária Federal, por meio de sua assessoria de comunicação social, informou que o policiamento tem sido reforçado nas regiões onde o trânsito é mais intenso - em estradas mal conservadas e localizadas nas serras (principalmente na subida) onde o trânsito fica lento. Outro aspecto apontado pela PRF é a inexistência de uma estatística precisa sobre a violência nas rodovias porque os motoristas, quando abordados por bandidos, levam o fato apenas ao conhecimento da Polícia Civil e não à Rodoviária, ficando impossível uma ação mais efetiva para melhorar a segurança dos motoristas. Ainda segundo a PRF, a campanha a favor do desarmamento promovida pelo Governo Federal pode de fato diminuir o índice de violência no País.