Voto a Voto

30/09/2006

A nova versão de uma velha história

Leandro Pereira
votoavoto@uol.com.br
Do Voto a Voto

Para o cientista político Valeriano Mendes Ferreira Costa, professor da faculdade de Ciências Políticas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o cenário brasileiro sinaliza ser a nova versão de uma velha história.

Duas grandes forças políticas se defrontam no cenário atual. De um lado, há o Partido dos Trabalhadores (PT), definido por ele como “a maior decepção política da história brasileira desde a renúncia de Jânio Quadros”. Para o professor, a sigla retoma velhos modelos populistas do regime pré-1964. De outro lado, temos o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), com grande risco de se tornar uma reedição da velha União Democrática Nacional (UDN), partido conservador extinto pelo regime militar. Para Valeriano, no caso dos tucanos, o caminho ainda é incerto. O pesquisador chega a definir a legenda como “a grande incógnita da política brasileira contemporânea”.

Na entrevista a seguir, o professor da Unicamp analisa essa e outras questões que ameaçam criar um quadro de instabilidade no cenário político nacional.

Voto a Voto – O Brasil vive um novo momento com Lula. O que isso diferencia dos outros governos?
Valeriano Costa - A liderança política do presidente Lula retoma em parte o velho modelo populista, de lideranças personalistas (como a de Vargas), mas ainda mantém um vínculo com o projeto de governo partidário (PT e seus aliados). Esse vínculo está cada vez mais fraco. As crises sucessivas estão forçando o presidente a se apoiar apenas no seu carisma e na sua capacidade de atrair partidos de perfil fisiológico para sua base de apoio.

O primeiro mandato de Lula frustrou completamente as expectativas de um governo moderno, com representação de interesses organizados em torno de uma coalizão mais ou menos estável. Embora tenha repetido algumas características dos (dois) governos FHC, o atual governo mostrou-se mais dependente ainda de uma coalizão heterogênea e instável, que deu origem à crise atual.

Voto a Voto – Como isso se reflete na sociedade brasileira?
Valeriano Costa - Os reflexos do governo e de sua crise sobre a população ainda não podem ser percebidos, pois o processo ainda está evoluindo. Mas é certo que o ceticismo da população em geral, especialmente da classe média com a política, pode levar a uma maior polarização entre setores populares e médios, reproduzindo em parte a velha tradição dos governos pré-1964. Mas ainda é cedo para dizer algo conclusivo.

Voto a Voto – O que aconteceu com o PT, qual foi a mudança?
Valeriano Costa - O PT cresceu, se tornou mais pragmático, mas se mostrou menos capaz de resistir ao ambiente do sistema político brasileiro do que imaginávamos. Ele se adaptou e aprofundou as piores práticas dos partidos tradicionais. Ele terá de enfrentar uma forte renovação em seus quadros dirigentes ou sofrerá um desgaste muito importante ao longo do próximo mandato, com ou sem Lula na Presidência.

Voto a Voto – E o PSDB, mudou alguma coisa?
Valeriano Costa - O PSDB também está passando por transformações importantes, mas que ainda não se completaram. O principal desafio dos tucanos é ampliar o núcleo dirigente e incorporar processos decisórios mais democráticos. Isto ocorre em função da crescente competição entre a velha liderança paulista e as novas lideranças (como a de Aécio Neves). Ele tende a se transformar num partido mais organizado e mais democrático ou sofrerá perdas regionais importantes.

Voto a Voto – O PSDB assumiu o lugar de oposição, mas ele realmente exerce este papel?
Valeriano Costa - Sim, o PSDB e o PFL formam uma bancada de oposição forte, mas suas bases sofrem o constante assédio dos partidos governistas, o que tende a radicalizar as bancadas estaduais mais fortes do PSDB (SP e MG) e do PFL (BA e SC). Com isso, o bloco de oposição ficará cada vez mais parecido com a velha UDN, embora sem um discurso golpista.

Voto a Voto – Pode um partido como o PSDB, tradicionalmente de direita, assumir e desempenhar um papel típico de um partido de esquerda?
Valeriano Costa - O PSDB não é um partido de direita, mas de centro-esquerda. O que aconteceu ao longo do tempo é que o crescimento do PT empurrou o PSDB para uma aliança com o PFL e parte do PMDB mais conservador. Mas esse processo pode se inverter, dependendo da crise do PT.

Voto a Voto – Um partido tido de esquerda como o PT, que sempre zelou por idéias não liberais, mais voltado a idéias populistas confundidas com socialistas, pode continuar com essa ideologia à frente de um país que nunca teve um governo com essas idéias? Ele consegue se manter no poder cultivando essas idéias do passado?
Valeriano Costa - Na verdade o PT nunca foi um partido socialista tradicional. Desde o início, foi o resultado de uma coalizão heterogênea de forças de esquerda. O próprio Lula confessou que nunca foi de esquerda. Além disso, nenhum governo no Brasil pode se apoiar num único partido ou tendência ideológica. O nosso presidencialismo depende de coalizões heterogêneas para funcionar. Portanto, o PT nunca teve a ilusão de implementar idéias socialistas onde governou. O que surpreendeu a todos foi a rapidez e a facilidade com que se converteu num partido pragmático e até mesmo corruptor.

Voto a Voto – O que podemos esperar do PT e do PSDB nessas eleições?
Valeriano Costa - A expectativa é que o PT sofrerá pela primeira vez, uma redução na sua bancada federal. Se isto ocorrer, o partido ficará a reboque do maior partido de apoio ao novo governo Lula: o PMDB. O PSDB provavelmente crescerá, mas não tanto quanto desejaria. Ele continuará sendo um dos principais partidos de oposição, junto com o PFL. Se a cláusula de barreira tiver o efeito esperado, muitos partidos pequenos e médios poderão desaparecer no Congresso, abrindo espaço para a cooptação dos parlamentares desses partidos pelos quatro partidos grandes (PMDB, PT, PSDB e PFL). Isto pode levar a uma maior polarização entre os dois grandes blocos, PMDB e PT de um lado, apoiando o governo, e o PSDB e o PFL na oposição.

Voto a Voto – Gostaria que o senhor definisse com uma frase o PT e com outra frase o PSDB.
Valeriano Costa - O PT é a maior decepção política da história brasileira desde a renúncia de Jânio Quadros (que resultou no golpe de 1964). O PSDB ainda é a grande incógnita da política brasileira contemporânea. Não se sabe ainda se ele irá avançar na direção da social-democracia, ocupando o espaço deixado pela crise do PT, ou será empurrado para um papel conservador.