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15/09/2004
'Se Lula
perdoa dívida de países pobres, por que não a dos municípios?'
Sílvia Ferraro, candidata à Prefeitura de Campinas pelo PSTU, questiona
diretrizes do governo petista
Divulgação
 | Sílvia
Ferraro (PSTU): "O problema é o desemprego"
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Cecília Ferrarezzi
votoavoto@uol.com.br
Do Voto a Voto
Professora de História da rede estadual, Silvia Ferraro é a única
mulher a concorrer à Prefeitura de Campinas nas eleições deste ano.
Filiada ao Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), ela já
se candidatou em outros momentos, como para vereadora em 2000, quando
alcançou 1.395 votos, e para deputada federal, somando nessa ocasião
818 votos. Compartilhando a ideologia do partido, considerada por
opositores como sendo utópica — fado que carrega o Socialismo desde
antes da queda da União Soviética —, Silvia faz parte do PSTU desde seu
surgimento, em 1994. Costurado pelos movimentos operário e estudantil,
o PSTU nasceu de uma dissidência do Partido dos Trabalhadores (PT),
quando a corrente “Convergência Socialista” foi expulsa do PT por ser
favorável à política do Fora Collor, em 1992. Nesse entrevista na sede
do partido em Campinas, Silvia reafirmou o enfoque dado pela campanha
para um trabalho de amplitude federal, como o não pagamento da dívida
do município e uma reestruturação trabalhista no cenário nacional.
Voto a Voto: Os recursos da campanha vêm de onde?
Silvia Ferraro: Eles vêm de contribuições dos próprios militantes, dos
filiados, dos simpatizantes, dos amigos.
Voto a Voto: Em quais nichos sociais o partido está investindo mais?
Silvia: Nós temos trabalho na classe operária metalúrgica, química,
funcionários municipais, professores estaduais, movimento estudantil,
universitários, petroleiros, bancários, funcionários da Unicamp.
Estamos inseridos em várias categorias profissionais e no movimento
estudantil.
Voto a Voto: E qual a estratégia de divulgação utilizada?
Silvia: Nós vamos nos lugares, conversamos com as pessoas, distribuímos
panfletos, apresentamos as propostas.
Voto a Voto: Você falou sobre o movimento estudantil enquanto fundação
do partido. Há algum envolvimento direto desse movimento? E qual sua
importância para a base do partido?
Silvia: A maioria dos militantes que nós temos e que acabam, inclusive,
indo trabalhar nas categorias profissionais conheceram o PSTU através
do movimento estudantil, através da própria luta da juventude. Então, o
movimento estudantil para nós é muito importante porque os jovens têm
uma identificação grande com o PSTU.
Voto a Voto: Qual o maior problema que a cidade de Campinas enfrenta?
Silvia: Acho que o problema mais grave é o próprio desemprego. Mas, na
verdade, nós temos uma política segundo a qual os problemas de Campinas
não vão ser resolvidos só em Campinas. Vão ser resolvidos quando forem
resolvidos os problemas do Brasil. Porque o desemprego, a falta de
investimento em moradia, saúde e educação são problemas nacionais.
Então, se não houver uma outra política social e econômica nacional, os
problemas de Campinas vão continuar. Todos os outros candidatos, na
verdade, estão mentindo quando falam que vão resolver os problemas de
Campinas. Agora, mesmo em Campinas, nós temos uma política de deixar de
pagar a dívida, de aplicar esses recursos em construção de moradias, de
centros de saúde, fazer mais concursos públicos, empregar mais gente,
um plano de obras públicas para fazer saneamento básico, recapeamento
de ruas. Com isso, nós achamos que vamos gerar empregos. A Prefeitura
vai ser uma geradora de empregos.
Voto a Voto: Por isso a insistência, na campanha, nos temas federais
como o rompimento com o FMI?
Silvia: É impossível melhorar a vida dos trabalhadores sem romper com o
FMI. É impossível. O FMI pressupõe que você tenha um superávit
primário, quer dizer, que você corte gastos da saúde e educação,
moradia e transporte para poder ter a estabilidade para os grandes
circuladores. Pressupõe que mais de 50% do orçamento do Brasil seja
destinado ao pagamento da dívida. E o pagamento da dívida de Campinas
vai para o Lula continuar o pagamento da dívida externa.
Voto a Voto: Mas, no caso do não pagamento da dívida municipal, como
driblar as conseqüências?
Silvia: Nós achamos que o governo federal vai ter que ser questionado.
Nós vamos colocar o governo Lula na parede e vamos dizer o seguinte:
'Você prefere pagar a dívida externa do que resolver o problema do povo
brasileiro?'. No caso, ele perdoa a dívida de vários países então, por
que não perdoa a dívida dos municípios que estão atolados, endividados?
Nós achamos que é possível criar um movimento nacional pelo não
pagamento da dívida externa.
Voto a Voto: E o partido tem conhecimento do perfil dessa dívida de
Campinas?
Silvia: Mais de 500 milhões é diretamente para o governo federal. E
essa é a dívida que seria deixada de lado. Mais ou menos uns 300
milhões são com bancos. Agora, se a Prefeitura tiver dívidas
trabalhistas, essas nós somos a favor de pagar, porque na verdade essa
é que não é paga.
Voto a Voto: E com relação à consciência de classe dos trabalhadores,
está sendo fácil atingir essa classe que é relativamente desagregada?
Silvia: Nos setores mais organizados dos trabalhadores é mais fácil a
nossa política atingir esse público. Agora, nos setores mais
desorganizados, os setores que não têm uma participação política mais
efetiva, que não têm uma participação sindical, é mais difícil. Porque
como não têm essa participação, às vezes, acabam sendo iludidos por
campanhas que prometem muitas coisas. Mas nós queremos também
atingi-los com nossa propaganda, nós temos falado nossa política na
televisão. Às vezes, nem todo mundo entende o que a gente está falando,
a maioria das pessoas fala que a gente está criticando, que não
apresenta propostas. As pessoas querem respostas mais rápidas, mas isso
é uma ilusão porque soluções fáceis não existem.
Voto a Voto: No cenário federal vocês têm alguma representatividade?
Silvia: Não.
Voto a Voto: Então a conquista do espaço teria de ser mais lenta,
gradativa?
Silvia: É, nós participamos das eleições, nós não nos coligamos com
nenhum outro partido, então para nós é muito difícil eleger deputados.
Porque, normalmente, se elegem aqueles candidatos que se coligam com
Deus e todo mundo. Mas isso é um princípio para nós. Nós queremos
também ser reconhecidos pelos trabalhadores a partir de um trabalho
cultural junto à classe trabalhadora e ligado às lutas dos
trabalhadores. Nós acreditamos que os trabalhadores nos reconhecendo
como um partido diferente de todos os outros partidos, eles vão colocar
o PSTU como uma verdadeira alternativa de oposição à esquerda, ao PT,
ao Lula e como uma alternativa revolucionária para o Brasil.
Voto a Voto: E, quanto a Campinas, quais as propostas para saúde,
educação, segurança e transporte?
Silvia: Para o transporte é a estatização do transporte. Saúde é a
construção imediata de mais 20 centros de saúde durante a gestão e a
contratação de novos médicos, enfermeiros; a regulamentação dos agentes
de saúde, como profissionais efetivos da Prefeitura. Para educação é a
construção de 87 creches para 160 crianças cada uma, suprindo o déficit
de 13 mil vagas. Segurança, nós achamos que não vai ser resolvido
colocando mais polícia, porque isso não diminui a criminalidade. Nós
somos a favor da dissolução das polícias que existem hoje e uma nova
polícia que fosse civil, unificada, democratizada, com direitos à
sindicalização, bem remunerados e sem ligação com corrupção e com
tráfico de drogas. Porque, hoje, uma das queixas que a população
levanta é que ela não confia nem ao menos na polícia.
Voto a Voto: E para você, particularmente, política ainda é vocação?
Silvia: Política é uma tomada de consciência que você dedica sua vida à
mudança que a gente quer ver no Brasil. Então, a nossa vida tá dedicada
a essa transformação que nós achamos que só virá a partir da tomada de
consciência dos trabalhadores e a partir de uma verdadeira
transformação do sistema capitalista. A gente acha que esse sistema é
injusto, só gera miséria, fome, violência. Então, nós dedicamos a nossa
vida a combater o sistema capitalista e a lutar por uma sociedade
socialista.
Voto a Voto: Então, a política seria uma ação militante?
Silvia: Isso, exatamente. .
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